Salto para o Futuro

Segunda e quarta,
TV Escola - 18h

Entrevistas

Isabel A. Marques

Realizada em: 8/12/2011

Atuação: Diretora da Caleidos Cia. de Dança

Obras: MARQUES, Isabel A. Ensino de dança hoje – textos e contextos. São Paulo: Editora Cortez, 2001; MARQUES, Isabel A. Dançando na Escola. 4. ed. São Paulo: Editora Cortez, 2003.

Dança na Escola: arte e ensino

Salto – Hoje o Brasil possui diversas companhias de dança, algumas delas são reconhecidas mundo afora, e também é palco de muitos festivais de dança, sem falar nos eventos populares que reúnem música e dança, em que as pessoas vão para se divertir. Agora, quando falamos de dança na escola, qual é o panorama? Como você percebe a presença da dança na escola?
Isabel – Pensando na presença da dança na escola, é preciso ver de que ponto de vista. A dança sempre esteve muito presente na escola, fazendo parte dessas festinhas – festinha de fim de ano, apresentação da Educação Física... Agora, se pensarmos na dança como área de conhecimento, como linguagem, ou se formos até mesmo pensar num papel diferenciado para a dança dentro da escola, no currículo, aí acho que a situação ainda está engatinhando. Não só porque a dança na escola é uma área de conhecimento, de certa forma,  recente, em relação às outras áreas obviamente, mas o que eu percebo é: quem pode ensinar dança na escola? Quem está preparado para isso? Que visão de dança a escola tem? Existem vários fatores que acabam excluindo essa dança de um programa mais específico, mais curricular. Eu percebo, também que na escola, às vezes, seja na Educação Infantil, seja no Ensino Fundamental, a dança não ocorre durante o ano como um processo curricular, mas nas festas do fim do ano sempre é preciso ter dança. E  dessa forma não existe um processo. Resumindo, podemos pensar a dança na escola mais como resultados e performances, como espetáculo, só para compartilhar com o público, ou então a ausência total da dança contínua, curricular, bem trabalhada. Mas é um processo que tem mudado muito nos últimos anos. É importante pensarmos que em 1997 foram publicados os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e, pela primeira vez, a dança aparece como área de conhecimento específico a ser trabalhada. E na época foi até interessante, porque eu fui convidada para fazer a redação dos Parâmetros na área de dança, e quem coordenava a equipe era Eloisa Ferraz. Na época, eu falei: "Só escrevo com uma condição – a dança não vai ser a última, e ela vai ter que ter o mesmo número de páginas das outras áreas". E o trato foi feito, e ela cumpriu à risca. Por quê? Porque a dança sempre acaba sendo a última, e acaba virando uma linha dentro do currículo de teatro, ou uma linha do currículo de Educação Física. Mas a dança como área do conhecimento mesmo foi nacionalmente assumida em 1997, com a redação dos PCN, e daí começou a ser repensada. Acho que foi um marco, apesar de várias críticas, mas pelo menos tem um documento, e o país assumiu a dança dentro do currículo. A partir daí, apareceram várias experiências, mas sempre experiências mais pontuais no currículo escolar, no Brasil afora. Uma gestão assume a dança, a outra não. Acabei de receber hoje um e-mail de Goiás. O governo anterior assumiu a dança, assumiu a arte. Mudou o governo, a arte vai ser excluída do currículo. Tem um movimento grande, inclusive, para pensar sobre isso. Então, ainda estamos muito na dependência da gestão mesmo, do ponto de vista mais amplo, e depois da gestão escolar. A diretora assume a dança? A coordenadora assume a dança? Os pais assumem e querem essa dança? Não é uma ausência total e generalizada, mas são casos específicos a serem tratados.

Salto – Num artigo denominado "Dançando na escola", que também é título de um livro seu, você fala de alguns dos dilemas que surgem quando o assunto é o trabalho com a dança nas instituições escolares. Um deles e desmistificar a ideia de que a dança se aprende dançando. Você chega a dizer, neste artigo, que é até uma postura ingênua pensar desta maneira. O que seria, então, uma postura crítica em relação ao ensino de dança na escola?
Isabel – Quando falamos que dança não se aprende só dançando... Talvez hoje, porque esse artigo é antigo, é de 1998, eu falaria assim: é lógico que só aprendemos a dança no dançar, no fazer. Mas, muitas vezes, o que acontece é que esse dançar vira uma cópia. Por exemplo: quem entra num trio elétrico, ele copia a dança de alguém, não é um criador de dança. Existem esses repertórios prontos das danças populares, ou esses repertórios da mídia, e nós aprendemos como? Copiando, reproduzindo esses repertórios. O que eu talvez pudesse complementar na sua fala é isso, não basta sair dançando, existe uma série de coisas que precisamos compreender e perceber a respeito da dança. Existem outras áreas de conhecimento que englobam o aprendizado de dança. É lógico, se vamos para um lugar aprender a dançar, aprendemos dançando. Se sairmos no carnaval, também aprendemos dançando. O que temos que pensar é: qual é o diferencial da escola? É uma pergunta que eu tenho me feito desde sempre, ao estudar essa área de conhecimento. Se a dança é um dos grandes cartões de visita do brasileiro, é lógico, se quisermos, podemos todos dançar. Mesmo que seja no nosso quarto, experimentando uma roupa para uma festa, podemos estar dançando. Qual seria o diferencial da dança na escola? Eu tenho trabalhado nisso. Não é só dançar, não é só chegar à escola e reproduzir as danças da mídia, do carnaval, e mesmo essas danças maravilhosas das manifestações populares. Ou seja, se pensarmos a dança como área de conhecimento no currículo escolar, ela vai muito além dessa reprodução das danças de repertório. Uma coisa é estar compreendendo a dança como linguagem, a outra é se perceber não só como um dançante, mas como um criador de dança. Acho que esse é um dos grandes diferenciais que a escola pode apresentar. Ou seja, não dançarmos só aquilo que a nossa tradição já traz, ou dançar a partir das ideias de um coreógrafo, por exemplo, mas saber como podemos nos tornar criadores de dança. E por que essa ênfase toda no criador? Principalmente agora com a Educação Infantil, a criança se precisa perceber protagonista. A criança é protagonista da vida dela, a dança pode ser mais uma maneira de ela se compreender como protagonista, como cidadã. Essa seria uma visão mais  crítica. Lembrar que a dança não é só se fazer. Existem também áreas complementares de conhecimento, por exemplo, a história da dança, essa relação da história da dança com a sociedade em que vivemos. E esse conhecimento de fruição de dança, como ir a espetáculos de dança, ou receber na escola espetáculos de dança para as crianças e/ou adolescentes, essas também são formas de aprender a dança. Então, existe o aprender a dançar, que seria o grande diferencial, e o aprender dança. A dança engloba esse dançar, pois obviamente não vamos aprender dança lendo. Isso pode parecer óbvio para quem está me ouvindo, mas muita gente pega uns livros sobre dança e educação, até mesmo os meus livros, e diz já saber. Se essa experiência não passar pelo nosso corpo, nós não sabemos. E aí tem uma diferença, que é essa ideia do saber como saborear, e o conhecer. Por exemplo: a partir do momento em que a dança está no nosso corpo, estamos saboreando a dança; mas podemos ampliar esse sabor, indo a espetáculos, fruindo essa dança, conhecendo a história, conhecendo todos os aspectos relacionados à dança. E aí é que poderíamos pensar como esse grande diferencial da dança na escola, e não a dança em uma academia, a dança em uma ONG, a dança na rua, em todos esses momentos em que a dança está presente na vida, principalmente do brasileiro. Nada contra ONG, rua, academia, é que temos que pensar qual é o diferencial. Porque se a escola está fazendo a mesma coisa que todas essas outras instituições estão fazendo, por que a dança na escola? Se formos pensar, por exemplo, na Inglaterra, na década de 1950, quando a dança foi incluída no currículo – quem incluiu a dança no currículo foi Labam, que é um dos referenciais teóricos com que temos trabalhado bastante, inclusive nos PCN – é uma população, uma cultura, em que não se dança. Então, se a dança não estiver presente na escola, a população vai ter pouquíssimas chances de experimentar, de fruir, de conhecer a dança como arte. No Brasil, talvez não seja essa a nossa questão. O dançar não é a nossa questão. Nossa questão é conhecer a linguagem da dança, a dança como área de conhecimento, não isolada. Aí essa postura crítica seria isso: podemos ser excelentes dançarinos, isso não implica ser um cidadão, certo? Acho que essa interface entre dança e cidadania é que a escola pode estar proporcionando.

Salto – Um outro dilema, nesse mesmo artigo, é que ainda é um tabu mexer com o corpo na escola – como se fosse algo até impróprio. Esse é um pensamento mais recorrente entre os pais, ou entre os educadores?
Isabel – Essa pergunta bem interessante. Quando estamos trabalhando, por exemplo, com a educação infantil, já existe esse discurso assumido de que a criança é corpo, de que a criança se comunica corporalmente. Atualmente, a Educação Infantil é de 0 a 6 anos, então, enquanto a criança ainda não se apropriou da linguagem verbal, ela tem essa linguagem corporal. Isso está em todos os documentos, livros de Educação Infantil. Os professores, até do Fundamental I, se apropriaram desse discurso, mas efetivamente eles não assumiram isso no corpo, por quê? Porque eles mesmos, muitas vezes, não tiveram essa experiência. Então, como é que vamos trabalhar essa experiência corporal, pensando na dança com as crianças, se não nos apropriamos da linguagem do corpo, como professores? Fica essa coisa desbalanceada, entre aquilo que acreditamos, e sobre isto temos um grande discurso, e o que efetivamente conseguimos, que é trabalhar corporalmente na escola e ter a dança como uma dessas possibilidades. Entre os pais, em algumas situações, ainda existe esse tabu, sim, de como é que nós vamos lidar com o corpo, o que é afinal de contas esse corpo. Eu gosto de fazer um paralelo, pensando a dança e a poesia. Uma coisa é termos o poema, que são as palavras sobre o papel, e outra coisa é a poesia. Por isso é que falamos sobre os poemas de Mario de Andrade. Fazendo um paralelo com a dança, essas palavras sobre o papel são o seu corpo, mas quando estamos apreciando um espetáculo, quando estamos dançando, o que interessa é esse corpo ou o que esse corpo dança? Então, quando estamos fruindo um espetáculo, na verdade, estamos falando do dançar, e esse corpo, obviamente, é importantíssimo. Os poetas passam anos burilando uma rima, uma frase, um vocabulário específico, e nós também temos que burilar esse corpo, porque esse corpo é que produz o dançar. Mas quando vamos assistir a um espetáculo, é uma coisa muito interessante de pensar no corpo, não estamos lá olhando pequenos detalhes,  queremos ver como esse corpo dança. E isso é uma das grandes contribuições da escola. Nós não estamos vendo essa técnica, essa virtuose, nós estamos focados no dançar. Se conseguirmos ter essa visão, o tabu do corpo vai desaparecer. Porque são vários tabus, e devem existir muitas religiões que não aceitam, inclusive, a dança na escola – mas, além disso, o que é esse dançar? O que esse corpo vai produzir? Se começarmos a ter essa visão, essa questão se dilui. E aquela idéia, também, de que alguém não pode dançar por causa do peso, ou por não ser flexível. Talvez seja importante mudar um pouco essa visão: o que é esse corpo? E é isso que interessa. Não é só com o meu corpo, mas o dançar desse corpo. E eu acho que essa é uma questão, virar a dança "de ponta cabeça" na escola. Porque precisamos começar a pensar na questão estética da dança, na dança como arte, e não na dança como exercício. Isso eu converso com tantas professoras, quando estamos trabalhando com projetos de formação, e elas falam assim: "eu não pude dançar porque eu era gordinha". Tudo focado no corpo, e não no dançar. E é uma grande frustração quando nos sentimos impossibilitados de dançar. E acho que essa é uma das grandes questões para desmitificarmos sobre um dos papéis da escola.

Salto – Você também apontou outro desafio, que precisa ser superado, de que a dança é coisa de mulher. Muitos pais alegam que não deixam os filhos participarem de determinados tipos de dança, e de fato acreditam nisso, que há atividades voltadas para meninos e atividades voltadas para meninas. Como a escola pode lidar com esse desconhecimento dos pais?
Isabel – Eu acho que a escola é um lugar de excelência para trabalhar questões de gênero. Ali é que estamos com a faca e o queijo na mão para compreender essas questões de gênero do mundo contemporâneo. Nesse sentido, a dança pode dar grandes contribuições, por quê? Porque existe um preconceito. Quando se fala assim: "dança é coisa de mulher", o que se está pensando? Eu já investiguei muito isso. Existe um imaginário no nosso mundo que associa a dança ao balé. E eu já observei que crianças que nunca assistiram a um balé, que não tinham feito balé, fazem essa associação. E obviamente o balé é um estilo de dança que está alicerçado na figura feminina. O masculino ali é leve, é tudo mais feminino mesmo. O homem não tem ali uma função tão específica, ele é mais "carregador das mulheres", muitas vezes.

Salto – Pensamos logo em "O Lago dos Cisnes".
Isabel – Exatamente. Acho que muito desse preconceito vem por essa ideia de dança que temos com a associação com o balé. É importante quebrar essa linha de raciocínio, de que dança é apenas balé. Balé é uma das possibilidades de dança. Ainda vejo muita gente falar que vai assistir a um espetáculo de balé, mas na verdade é dança contemporânea, ou jazz. Mas esse imaginário está mudando muito. Se pensarmos em todos os grupos de dança de rua, ou nas danças urbanas, ou nos blocos de carnaval, encontramos um universo predominantemente masculino. Ampliar o conceito de dança é papel da escola. Na medida em que ampliarmos o conceito de dança, do que é a dança, do que é dançar, vamos perceber que isso não procede. Quando pensamos no protagonismo infantil, ou juvenil, ou no protagonismo da pessoa, aí não tem masculino, não tem feminino, não há questões de gênero. Tem o que aquele corpo produz. Acho que por aí conseguiríamos trabalhar um pouco esses preconceitos.

Salto – Tem ainda outro desafio que você aponta: para que a dança faça parte das escolas, é necessária a formação dos professores. Afinal, quem está apto a lecionar dança na escola?
Isabel – Essa é uma das nossas grandes dificuldades. Quando eu estava escrevendo os PCN, perguntei para minha coordenadora: para quem eu estou escrevendo? Estou escrevendo para pedagogos, que não têm formação em dança, pois, inclusive, são raríssimos os cursos de pedagogia que têm arte no currículo. Ou estou escrevendo para o especialista em artes? Seria aquele que fez artes visuais, teatro, licenciatura em educação artística, que já nem existe mais. Ou estou escrevendo para licenciados em dança? Foi um foco importante para pensarmos, porque são todos eles que estariam com essa função de ensinar dança na escola. Além disso, tem uma grande polêmica, que é se o professor de Educação Física ensina ou não a dança na escola. A polêmica é muito grande. Seriam esses professores que têm contato com o aluno, que a rigor poderiam estar ensinando. Obviamente, tem uma posição que não é fechada, dada as circunstâncias, e ao cenário mesmo no Brasil, em relação a quantos graduados em dança, a quantos licenciados em dança temos no Brasil. Se fôssemos obrigatoriamente ter o ensino de dança nas escolas só por esses licenciados, não sei mais quantos séculos teríamos pela frente. Mas qual é o conhecimento mínimo, por exemplo, para o pedagogo poder ensinar dança? O que esse professor de Educação Física precisa saber para ensinar dança? E, obviamente, o artista. Quer dizer, ser o artista da dança não quer dizer, necessariamente, ser professor de dança. Principalmente dentro da situação curricular. Então, se pensarmos um pouquinho, que conhecimento de dança é necessário para trabalhar com essas atividades na escola? Muita gente pensa a na Educação Infantil, por exemplo, o que esse pedagogo precisa para incluir a dança nas atividades do currículo junto com as crianças? Por exemplo, a dança na Educação Física: quais são as características dela? E a dança como arte? São características muito diferentes. Agora, estamos num período muito fértil aqui no Brasil, com a abertura de vários cursos de licenciatura em dança. Não sou muito boa em números, mas eram cerca de 10 cursos, entre privados e públicos, e atualmente são 34 no Brasil. Isso vai alterar bastante o cenário. Esperamos que esses licenciandos realmente estejam na escola pública, que eles tenham essa abertura. Agora, como eu falei antes, a gestão começa a incluir a dança. E vamos ver como é que esse mercado vai lidar com isso. Mas foi uma iniciativa do governo federal muito interessante, estar priorizando a abertura dos cursos de licenciatura em dança. Isso já está dizendo muita coisa. Acho que esse quadro vai se modificar sim, em função da entrada desse professor especialista na escola. E aí vamos ver como esse professor especialista lida e trabalha com o currículo. Porque, muitas vezes, quem tem suprido essa necessidade são os artistas da dança. E nem sempre eles estão não só aptos, mas sim interessados, na questão curricular. Porque antes de termos o conhecimento, temos que ter o interesse. Que interesse que eles têm? Eles vão à escola dar um show e vão embora? Então, essas coisas mostram que devemos pensar muito em como é que podemos estar trabalhando. E, obviamente, a pedagogia assume que a arte faz parte do currículo, então deve estar incluída no currículo alguma disciplina que se refira à arte. Porque isso é uma deficiência muito grande na situação atual.

Salto – Diante disso que você acabou de apontar, muitos professores também devem se perguntar sobre os conteúdos específicos, porque não é só dançar. Dançar é importante, mas não é só isso. Se existem conteúdos específicos para trabalhar com a dança, que conteúdos seriam esses nas escolas?
Isabel – É importante perguntar isso, porque muita gente diz assim: existe uma lista de conteúdos? A lista, é lógico que ela existe. Mas muita gente desconhece. Reúnam alguns grandes grupos e depois, com esses grupos, podemos ir desenvolvendo. Um grande grupo seria o grupo do fazer, do experimentar a dança, do fazer dança. Esses três grande grupos não fui eu quem explorei, quem trabalha com eles é Ana Mae Barbosa, e eu comecei a trabalhar isso em relação à dança. Então, como é que se faz dança? Podemos ter um grande fazer no sentido de produzir a arte. Não estou falando aí dos exercícios, estou falando da posição artística. Um grande grupo é esse processo criativo. Eu vejo assim, dentro dos processos criativos, temos duas grandes linhas, uma que no passado chamavam de expressão corporal, que é um termo muito ingrato. Mas que atualmente chamamos de improvisação em dança. Improvisar não no sentido de fazer qualquer coisa, mas de estar explorando, experimentando, experienciando as possibilidades de um corpo que cria. Sem, necessariamente, às vezes, chegar a um resultado. Um outro processo criativo é a composição. Como é que começamos a coreografar? Como é que compomos esses elementos, para que possamos depois dançar várias vezes, e inclusive mostrar o processo para os pais, se for o caso? E depois existem os processos interpretativos: como é que aprendemos os repertórios que já existem? Tanto o repertório que a professora ensinou, como o que um colega fez, é muito bacana estar experimentando isso nas áreas do Ensino Fundamental. O grupo pode começar a ter os seus próprios repertórios. E ensinar, para outra turma, o que a professora criou. Os repertórios dos grandes coreógrafos, os repertórios da nossa tradição e os próprios repertórios que criamos, ou os que os nossos colegas criam. Então, é a hora em que vamos aprender a incorporar isso no nosso dia a dia. Eu tenho esse grande grupo do fazer, são os criativos e os interpretativos. Mas fora isso tem toda essa área do conhecimento da dança, que é a área de apreciação crítica, fruição, de se  tornar esse leitor da dança. Sempre pensamos no leitor como aquele que lê palavras, mas lemos corpo, lemos arte, lemos imagem. Precisamos ampliar esse conceito de leitura. Na verdade, é importantíssimo isso para o mundo em que vivemos. Como é que  estamos lendo corpos? Hoje, até conseguirmos nos colocar aqui, foi uma leitura de corpos. Onde vai a perna, o que eu quero fazer? E isso também podemos aprender nessa fruição de espetáculos de dança. Espetáculos, manifestações, enfim, eventos de dança. E o outro grande grupo, que chamamos de área da contextualização, ele trabalha bastante com a história da arte, a história da dança, mas não como uma coisa isolada. O que eu tenho visto muito é que quando chega no 9º ano a criança não quer mais dançar, o adolescente é complicado, é aula de história da arte o ano inteiro. Porque passamos projeção, passamos vídeo e pronto, ninguém precisa se mexer e acabo com todos os meus problemas. Não, na verdade, o grande mote hoje, em que eu tenho trabalhado bastante, é como essas coisas se relacionam. Então, se estou fazendo uma composição coreográfica, eu me alimento assistindo dança, para que esse assistir dança alimente o meu processo criativo. A história alimentando a minha fruição e alimentando o meu processo criativo. Na verdade, não são apenas esses conteúdos que eu vou pondo na lista, e sim como todos esses conteúdos podem ser articulados. Temos essa imagem do caleidoscópio mesmo, e temos trabalhado nisso. Esses conteúdos são peças de um caleidoscópio. O que o professor vai fazer? Vai girar esse caleidoscópio, ver como é que esses conteúdos se articulam entre si. E eu tenho introduzido conteúdos mais específicos, que dizem respeito à arte em si, e tentei trabalhar isso na dança. Como é que esses conteúdos se articulam com a vida pessoal desse aluno, e com a sociedade? Porque aí vai formar um imenso caleidoscópio. Quer dizer, que relação a capoeira tem com a minha vida no dia a dia? Se é que o professor escolheu o repertório da capoeira, que é um repertório interessantíssimo, não para ser copiado, mas para ser estudado, degustado, apreciado. Não é só saber a história da capoeira, mas o que ela estava dizendo para aquela época, e o que ela está dizendo para a gente hoje. Podemos entrar por muitos vieses. Podemos entrar na capoeira por todo esse viés da violência. Como é que nos defendemos? Como é que atacamos? Como é que isso ocorre nos dias de hoje? Vamos trazendo essas danças que as crianças vão criando, as danças que já existem, para o nosso dia a dia, para o nosso atual. Isso pode ser uma coisa bem interessante.

Salto – Você usou, em vários momentos da sua fala, a palavra repertório. Isso é uma questão importante quando se pensa nessa postura crítica em relação à dança. Diferenciar, saber diferenciar a dança como repertório e a dança como linguagem. Qual seria essa diferença?
Isabel – Vou falar de uma forma bem simples. Estou chamando de repertório aquelas danças prontas, de passo. Estou falando de uma forma bem simples. Porque é como a sociedade entende dança. Dança uma sequência de passos. E acho que é isso que a escola tem que desmistificar. Ela não é um conjunto de passos que eu vou decorar e reproduzir para alguém ver. Mas existem, sim, danças que já estão prontas, e que os passos já estão ali, a tradição já trouxe esses passos, que eu posso aprender. Uma coisa é incorporar, é corporificar, entender como é que aquilo que a tradição criou se instaura no meu corpo. Meu corpo de hoje, de mulher contemporânea adulta. Vou pensar nas professoras, por exemplo. E outra coisa é sair decorando esse monte de coisas, e virar um robô, e não sei nada dessa dança. Não sei nada nem em termos de histórico, de contexto, e isso não diz nada para mim. E é o que muitas vezes acontece. É aí que temos insistido bastante em explorar a dança como linguagem. Ou seja, a linguagem, a apropriação da linguagem da dança, vai fazer com que esses repertórios também sejam compreendidos de outra forma.  Por exemplo, ao falar de artes visuais, das artes plásticas, temos a cor, a textura, são elementos que vão compor essa linguagem. Na dança também temos isso. E quem codificou esses elementos foi Rudolf Labam, bailarino e coreógrafo do início do século XX, que inclusive introduziu a ideia da dança na escola. Labam foi codificando essa linguagem. Por exemplo: eu posso fruir um espetáculo, ficar vendo e recebendo, ou posso interagir com esse espetáculo se eu tenho elementos para ler. Ou, então, a pessoa pega aquilo e vai decorar. Decorar aquele poema, decorar aquele texto, não é isso? Aí, se perguntamos o que ela leu, ela diz: não sei. Uma coisa é ler essas palavras, outra coisa é saber o que diz esse artigo. Quando eu me torno um leitor? Quando eu me aproprio dos elementos da linguagem. Então, o leitor apreciador, um leitor fazedor, é um leitor contextualizador. E para isso precisamos da linguagem. Como é que eu vou criar meus próprios textos? Como é que eu vou escrever uma redação? Ou eu copio da lousa, e aí não sou um leitor e nem um produtor, ou eu me aproprio da linguagem verbal para poder escrever uma redação. A dança é a mesma coisa. O que mais vemos na área de dança é o copiador. Tanto em associações, academias, companhias de dança. Porque estamos insistindo tanto em sermos leitores da dança, e  produtores de dança? Porque é aí que se encaixa a cidadania. A cidadania não é levar o balé para a favela. Isso não é cidadania. Cidadania é poder compreender a dança, compreender o seu corpo, se compreender leitor de mundo. Isso sim vai transformar, isso sim vai modificar a nossa vida. É essa a ideia da apropriação da linguagem, é termos possibilidades realmente de nos transformar, e nessa transformação pessoal também estar atuando de formas diferentes no mundo. É uma questão muito complexa, mas a insistência em trabalhar com a linguagem é por causa disso. A linguagem artística não espelha o mundo. Aquela fala "a arte espelha o mundo" não é verdade. A arte interfere no mundo. E se pensarmos que é uma arte que trabalha com o corpo, mais ainda. Acho que, às vezes, não temos essa noção de maneira clara, que o corpo que está ali dançando é o mesmo que está subindo para o ônibus, o mesmo que está indo à farmácia, é o mesmo que está na fila do SUS. Então, se esse corpo se modificar, se esse corpo se transformar, se essa pessoa conseguir corporificar e incorporar essa dança, não é que depois na fila do SUS ela será diferente, ela já é diferente. Em termos de escola, pensar o revés. Quem está na sua sala de aula é aquela criança que ficou na fila do SUS, foi atendida 5 minutos e o médico falou: "Ah, não é comigo". E vão passar mais três meses até ela ser atendida novamente. É o mesmo corpo. E trabalhando via linguagem, poderemos atuar no mundo, com a dança. Não é a dança ‘para’, é que dependendo do dançar que eu faço, esse dançar de que já falamos antes, com esse corpo vou me tornar um cidadão diferenciado ou não, porque eu vou ter não só essa consciência do meu corpo, mas do meu corpo atuando no mundo, as possibilidades de atuação no mundo. E insisto muito, sim, os repertórios são bacanas. Mas a criança que só lê e não produz não faz uma redação, sabemos que ela está perdendo muita coisa em termos de cidadania. E aí é que estamos pensando em cidadania. Quando me vejo criador de uma dança, quando me vejo criador do meu corpo, eu já vou ter outras perspectivas sociais, dançando.

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Entrevistas

Roger Chartier

Roger Chartier

   Série: Evento Alagoas
   Tema: O leitor, o livro e a leitura
   Realizada em: 25/06/2004

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