Presidente Lula fala com exclusividade à TV Brasil
A entrevista vai ao ar na estréia do programa 3 a 1, às 22h de hoje
Em entrevista exclusiva à TV Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou que o Brasil vai dar apoio logístico à Bolívia, a pedido do presidente Evo Morales, para desmantelar grupos armados no departamento de Pando, na fronteira com o Acre. A informação foi dada na entrevista gravada hoje (17), em Brasília, para a estréia do programa 3 a 1, da TV Brasil, que vai ao ar às 22 horas desta quarta-feira.
“Nem pensar em ingerência brasileira na Bolívia; muito menos tropas”, disse Lula. Mas o Brasil vai auxiliar com a venda de caminhões e ônibus para para o Exército Boliviano e com ajuda da Polícia Federal na fronteira. O presidente pediu aos ministros da Justiça, Tarso Genro, e da Defesa, Nelson Jobim, para entrar em contato com autoridades bolivianas e tratar dessa colaboração. Na entrevista, Lula criticou a interferência de embaixadas dos EUA em assuntos internos de países da América do Sul em diversos momentos da história do continente, ao comentar a decisão de Evo Morales de expulsar da Bolívia o embaixador norte-americano.
Lula gravou a entrevista durante a manhã, nos jardins do Palácio da Alvorada. Ele respondeu a perguntas sobre a crise nos Estados Unidos, falou de possíveis medidas do governo junto ao BNDES para aumentar o crédito e sobre o futuro da Petrobrás. O presidente falou, ainda, sobre o pré-sal, o uso de algemas, Polícia Federal e Abin, casamento homossexual, aborto e até seleção brasileira.
A íntegra da entrevista será exibida hoje, na estréia do programa 3 a 1, às 22 horas, na TV Brasil. O programa é apresentado pelo jornalista Luiz Carlos Azedo e vai ao ar todas as quartas-feiras. Também participam da entrevista de hoje a diretora de jornalismo da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Helena Chagas, e o jornalista convidado Cristiano Romero, do jornal Valor Econômico. Muitas das perguntas foram coletadas nas ruas, feitas por telespectadores de várias capitais brasileiras.
A entrevista com o presidente Lula é a primeira de uma série com ex-presidentes e outras personalidades. Estão sendo convidados Fernando Henrique Cardoso, Itamar Franco, Fernando Collor e José Sarney. O entrevistado do 3 a 1 da semana que vem será o cineasta Bruno Barreto, que teve seu filme “Última Parada 174”, indicado pelo Ministério da Cultura para concorrer ao Oscar 2009.
A seguir, na íntegra, o trecho da entrevista sobre a questão boliviana:
TV Brasil: A crise boliviana está exigindo uma mobilização dos países sul-americanos. O senhor vai realmente mandar o Ministério da Defesa, ajuda logística e tropas para o Evo Morales fazer frente aos grupos armados que estão tumultuando o país?
Luiz Inácio Lula da Silva: Nem pensar em ingerência brasileira na Bolívia; muito menos tropas. Ou seja, o que nós acertamos com o Evo Morales, e foi uma coisa extremamente importante, foi a primeira grande decisão da União Sul Americana de Nações; uma decisão, na minha opinião, histórica, em que a gente baliza aquilo que a gente entende que deva ser a relação dos vizinhos com a Bolívia, na expectativa de que o povo boliviano, através de seu governo e de sua oposição, acate as orientações e a gente possa voltar à normalidade na Bolívia. O que é muito importante para os países vizinhos e para a Bolívia, que só vai se desenvolver se estiver em paz.
Mas qual a ajuda brasileira para a Bolívia?
Qual a ajuda? Veja, o Evo Morales pediu para a gente ver se pode vender caminhões para as tropas dele. Nós vamos tratar de ver se a indústria automobilística brasileira pode produzir, e com uma certa rapidez, alguns caminhões para a Bolívia. E ele pediu também, e o ministro Tarso Genro disse que a polícia já estava lá; pedir para o Tarso ligar para o ministro da Justiça do Evo Morales para tentar estabelecer uma ação conjunta da Polícia Federal na fronteira para evitar trânsito de pessoas, de gente com armas, evitar contrabando, evitar o narcotráfico. E, ao mesmo tempo, vou pedir para o Jobim também falar com o ministro da Defesa da Bolívia para ver essa coisa da ajuda com caminhões, ônibus, que eles estão precisando também. Ou seja, no fundo, no fundo, o Brasil precisa fazer um esforço muito grande porque nós temos mais de 3 mil quilômetros de fronteira com a Bolívia e nós queremos que ela esteja em paz, porque em paz ela vai crescer; em guerra, não.
Esse tipo de ajuda não pode ser encarado como uma interferência do Brasil em assuntos de um país vizinho?
Não pode. Se fosse assim, você não poderia vender nada para ninguém. Nós estamos fazendo uma relação comercial, o Evo estava na reunião e depois que eu ouvi alguns discursos de alguns presidentes, quando chegou minha vez de falar, eu falei à presidenta do Chile: “Eu, ao invés de falar, eu queria perguntar ao Evo Morales o que ele acha que nós precisamos falar para ajudá-lo. Ele é quem tem que dizer”.
O Evo Morales acusa o governo dos Estados Unidos de interferir na vida interna na Bolívia, de estimular essa rebelião em Santa Cruz e em outras províncias da região. O Brasil tem boas relações com os Estados Unidos. O senhor inclusive tem excelente relação com o presidente Bush. O senhor chegou a conversar com as autoridades americanas, ou com o Bush, sobre esse problema na Bolívia?
Eu conversei várias vezes com o Bush, até a pedido do Evo Morales, para que os Estados Unidos aprovassem rapidamente as tarifas especiais para determinados produtos bolivianos e está para ser aprovada agora, mas como houve essa expulsão do embaixador eu penso que agora essas coisas podem ficar paralisadas. Se for verdade que o embaixador dos Estados Unidos fazia reunião com a oposição do Evo Morales, o Evo está correto de mandá-lo embora. O papel de embaixador não é fazer política dentro do país, não. Ele está como representante do seu país, numa relação de Estado com Estado; ele representa o Estado. Aqui no Brasil, uma vez, uma embaixadora americana, em um jornal brasileiro, respondeu uma crítica que eu tinha feito ao Bush. Eu mandei o Celso Amorim chamá-la e dizer que não era admissível ela dar palpite sobre a entrevista do presidente da República. E, também, não é de hoje; é famosa a interferência das embaixadas americanas em vários momentos da história do continente americano. Então, eu acho que houve um incidente diplomático. Se o embaixador estava tendo ingerência na política lá, o Evo está correto.
O senhor acha que ainda existe risco de uma divisão na Bolívia ou essa reunião da Unasul estancou completamente essa possibilidade?
Peço a Deus que tenha estancado; peço a Deus que todo mundo compreenda o que é melhor para a Bolívia. Nem sempre a decisão de uma multilateral, de uma instância como a Unasul, e tantas outras da ONU, são tomadas e as pessoas não cumprem. Nesse caso, nós esperamos que cumpra, porque eu acho que as pessoas estão percebendo que nós estamos bem-intencionados com a Bolívia. Todo mundo quer ajudar a Bolívia; agora, é preciso que a Bolívia queira ser ajudada.
Eduardo Castro
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